Eis a página em branco esperando pelo autor destemido. Saio de casa, Ilha do Governador, para uma praia que se apresenta no imaginário dos dois moços que se vão, no caso eu e meu primo. As praias sujas do local insular denotam o descuido de gerações, e eu me vou em busca de uma limpo litoral. A saudade de casa bate antes mesmo de chegar, mas já fui e é tarde pra uma volta inesperada. A vista da Linha Vermelha não é nada agradável: são casas, emaranhas, ou nem emaranhas, correm através do caminho e são fios de um mesmo telefone que não chega a ligar pra lugar nenhum. As favelas à beira da vista me parecem tão reais que de fato o são realmente, meninos sujos de barro a jogar bola na beira do precipício social, gente a correr numa ciclovia sem mar, e eu me vendo diante daquele mórbido cinema sem tela. Ele ao meu lado olha como eu um antigo lago que hoje não passa de mangue , não os mangues de caranguejo, os de lodo e sujeira. Nos perguntamos se há uma saída, a resposta não vem e nem há de vir, o esgoto brota dos becos pra praia que nós vamos. A transição é feita através da Rodrigo de Freitas, e sem remissão ou alternativa o contraste já está feito. Cabe a nós aceitar ou não, ele me olha com olhos de não entender e eu respondo com olhos de vazamento de esgoto, ou de maré suja. Descemos, a Vinícius de Moraes se mostra mais viva que o menino dos malabares. Passamos a Barão da Torre e nada mais nos impede de avistar um infinito oceano a banhar a margem da cidade que não é de ninguém. Não é de ninguém. O corte entre as duas cidades que são só uma é tão claro que chega a cegar, e eu cego pelas meninas de uma zona que não é nem sul nem norte. O fruto proibido, ou pecado capital, é isso, nem lá nem cá. É um tiro na cabeça, uma bala achada, um estilhaço de racismo à beira mar na mordida da maçã. A volta não é para casa, é pra mim mesmo, é pra cidade que lacrimeja sangue a cada chacina, e ri dos mortos arrastados por mil esquinas. Voltei de Ipanema. A volta é uma cirurgia ao contrário, em que pacientes e médicos se confundem, até chegar à Leopoldina, claro.
Por Thiago Lagedo
—————
Coluna antecipada de Terça.
Porque vagabundo (Bruno Kzo) emendou a segunda.
3 respostas Até agora ↓
Diogo // Abril 30, 2007 às 5:15 pm
Tenho uma sensação igual sempre que vou pra zonal sul. Uma mistura de culpa com inveja, admiração com descaso. Uns culpados de morarem perto do mar e outros por morarem no desagüe imundo daqueles de lá. Assaltos, balas perdidas, falta de segurança, saúde públi ineficiente….Mesmo assim, adoro isso aqui. Adoro aqui lá. Muito.
Belo texto.
Barbie // Maio 2, 2007 às 3:25 am
Belo texto…
Barbie // Maio 2, 2007 às 3:29 am
Pq ninguem add a amiga da Xora no orkut ainda?
Vão dizer q vcs não tem orkut?
AAaaaaaaaaaaaaa fala sério…
Meu link tá aqui d novo aff:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=2280881709828295910
Pode clik, não é virus kkkkkkkkk
Bárbara Estrêla (o estrela é sobrenome, num é onda, não, tá?! aff É q todo mundo pergunta…)
Bjao e só p constar, o nivel da coluna tem subido, viu meninos?! rsrsrrs