Dia de festa na cidade que já não é tão maravilhosa assim. Não era carnaval apesar das fantasias dos santos Jorge e Expedito, das máscaras de Lula e Severino, e dos milhares de Josés e Marias que faziam um bico vendendo cerveja, churrasco, catando ou latas ou guardando carros. Era uma festa de interesses, uma tática infalível para ludibriar o povo fazendo-o esquecer das questões da violência, do caos aéreo, da falta de educação, da corrupção e paradoxalmente do desemprego que assolam o Brasil. Comemorávamos, só não sei o que. Foi nesse clima de festa que resolvi esquecer meu cotidiano deprimente. Cheguei numa loira linda que avistei depois de muito zanzar atrás de mulher bonita. Procurei bastante, feito numa pesquisa que busca por um político honesto, com a ficha limpa. Sem perder a carona da festa fui logo soltando a piada ao melhor estilo político mentiroso promissor:
- E ai loira, que tal conhecer o meu Ap na próxima rua?
-Também moro na próxima, só que na cobertura. Tchau!
Acho que ela mentiu. Nunca a vi andando aqui em Copa.
Mas eu não desisto e lá pela décima cerveja uma morena cambaleante veio acender o cigarro com um olhar meio torto. Reparei nela como um jovem atento que vota no candidato certo a cada eleição aqui no Brasil. Depositei minha cédula na segunda urna, já que na primeira tentativa a urna eletrônica não colaborou. Ela era perfeita. Ou quase. Tá bom, a morena quebraria um galho. Era jeitosinha, um corpo generoso, mas longe da perfeição E com um diálogo interessante. Um tanto oferecida, mas vou reclamar de que? Ela sabe o que quer. A morena estava mais para cidadã, boba. E eu fiz o meu papel de político, prometo, mas não cumpro. Comecei:
-Seu cigarro não acendeu direito, toma.
- Obrigada. – ela respondeu devolvendo o isqueiro.
- Quer beber uma cerveja?
- Claro – Respondeu já bêbada.
- Eu estou só. Tava em casa na maior solidão e resolvi sair em busca de uma companhia agradável ao coração.
Ela riu e respondeu:
- E não encontrou nenhuma?
- Não só encontrei como gostaria que desse uma volta comigo. Ta a fim?
- Vamos sim. Já estou cansada dessa multidão e, se me considera uma boa companhia…
Pusemos nossos pés na água a caminhar, e no percurso descobri que ela tinha 23 anos, uma filha, mora com a mãe em Inhaúma e a cerca de 8 meses não tem relações com ninguém. Que cansou do Brasil e em breve viajaria ao exterior atrás de um futuro melhor para a filha. “Tomara que não se prostitua“, pensei. Paramos num local quase deserto embaixo de umas árvores ainda na praia. Já estávamos aos beijos, mas ela sempre puxava o freio. Também acabamos de nos conhecer, deduzi.
- Você é tão bonita e inteligente. Parece ser direita. Diferente das poucas mulheres que conheço que só pensam em curtir.
Continuei:
- Você é raridade. Atraente, sábia e solteira. Sou um cara de sorte hoje, por ter te conhecido. Tava pensando se você não quer ir jantar lá em casa no sábado. Conhecer meus pais. Eles vão gostar de você.
- Nossa você mal me conheceu e quer que conheça meus pais num jantar em sua casa?
- É, eu acho isso um defeito. Minha carência afetiva me torna um alvo fácil. Apego-me facilmente se me tratar com desvelo. Sou frágil e sensível. Vulnerável quando conheço alguém como você.
- Parece mesmo. Quando acariciei seu pescoço você fez igual a um felino se esfregando em meu colo.
- É sou assim.
- Você está desempregada? Se estiver podemos ver um emprego pra você na gráfica do meu pai. Ele é generoso quanto ao salário, e caso fiquemos juntos, facilmente você seria promovida.
- Seria ótimo. – disse ela com entusiasmo. – Anota logo meu telefone, você me liga amanhã pra marcarmos melhor esse jantar em sua casa. Agora nós aproveitamos um pouco fazendo o nosso show!
Achei que ela se interessou pela oferta. Fizemos nossa festinha particular ao relento. Consegui o que queria após muitos elogios e promessas, feito um político no palanque antes da eleição prometendo empregos e tudo mais. Depois que é eleito faz festas por qualquer motivo só para tirar mais algum proveito. Mas o emprego do povo, sei lá, eu já fui eleito.
Por Elton Cruz
6 respostas Até agora ↓
Daniel // Maio 3, 2007 às 12:32 pm
Tá vendo como uma “chamadinha” faz bem de vez em quando? Muito maneiro o texto.
Julio Lagedo // Maio 3, 2007 às 1:18 pm
Achei bom pra cacete mesmo esse texto.
Me prendeu a leitura curiosa até o final, e eu jurava que no final ela teria dado o telefone errado…
BOA ELTON JOHN!
Bruno Kzo // Maio 3, 2007 às 1:58 pm
O telefone ela lhe deu, mas, oCupado, não?
Mr.M // Maio 3, 2007 às 2:00 pm
Melhorou muito seus textos. Viu só, como se torna muito mais interessante escrever com simplicidade.O Protagonista parece comigo, revela facilmente e com objetivo a mágica!
Barbie // Maio 3, 2007 às 7:01 pm
Por isso q em homem e político não se deve confiar meeeeeeeesmo… o paralelo foi bem razoavel. Vc mando bem. Mas isso me dexa triste, pois esse texto só prova minha tese de q homem é tudo igual. affffffffffffff
Aline // Maio 4, 2007 às 11:29 pm
Perfeita analogia entre homens e políticos. Este texto ficou perfeito, e com um toque que qualquer mulher consciente e inteligente iria adorar (inclusive as feministas), você realmente disse tudo: homens perfeitos políticos disfarçados.
Está vendo como eu também sei elogiar.
Beijos!!!
Até a faculdade ou até ao trabalho.