• ♠ ♣ C O L U N I A N D O S ♠ ♣ •

Tempo Que Foge!

Maio 9, 2007 · 2 Comentários

Julio Julio Lagedo está à procura de um emprego.

Sem tempo para escrever suas idéias, postar suas mensagens e precisando ganhar grana para sobreviver ao mundo capitalista (onde ganhar dinheiro não é o suficiente apenas para o pão, mas também para pagar, com o escasso provento, as contas derivadas de nossos consumos banais) o redator decidiu postar uma bela mensagem à nossa reflexão. Sorte ao querido amigo, reflexão aos nossos leitores.

Tempo que foge!

De: Ricardo Gondim

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.

Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Não tolero gabolices.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.

Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos.

Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos.

Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde

“tiramos fatos à limpo”.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: – Gosto, e ponto final!

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou:

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos“.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar explicando aos medianos se estou ou não perdendo a fé porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a vez da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com DeusAtman”*.

Caminhar perto delas nunca será perda de tempo.

* Alteração feita por Julio Lagedo

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Cachaça

Maio 8, 2007 · 9 Comentários

Thiago Ela sumiu há três dias, e o marido de agora não consegue disfarçar seu desespero, pra ele parecem mesmo três anos. ”Vou comprar cigarro“. A única frase que ouviu dela, só uma hora depois se deu conta de que ela nunca fumara, tarde demais. O telefone não tocava, o mormaço cada vez pior era o forno a cozinhar suas idéias. Depois de algum tempo talvez elas pudessem ser servidas à mesa, junto com seu desespero e pra acompanhar, um trago de saudade. Começava a recuperar na memória as fotos de toda uma vida em comum: noivado, casamento, sogra insuportável, genro parasita, almoços de domingo intermináveis. Enfim, tudo que transforma em tédio uma existência. Ainda sim não queria estar sem ela, não podia suportar a idéia de não ter com quem reclamar da vida. A cabeça dele tomava agora o formato de uma foice, a cortar tudo que dela se aproximasse, tristeza demais. Trinta anos juntos e nenhum filho, cachorro ou gato, dia desses se pegou falando com o liquidificador. No sexto dia, o peito já uma ferida aberta, se aproximou da janela com ares de suicida, mas não se jogou. Não por medo nem nada, sim por que pensou numa possível volta da mulher, pensou que ela sofreria demais se o visse morto. Corno é assim, um sofrimento só não basta. Todos na vizinhança sabiam dos casos daquela mulher, menos ele. Ou fingia não saber. Começou a beber todo dia uma garrafa de cachaça, e cada garrafa era uma parte  da mulher. Bebeu braços, pernas…e quando vomitava sentia que estava perdendo alguma parte dela, bebia mais então. Ainda hoje, mesmo com cirrose, quando a solidão bate, ele entorna de um gole só a garrafa toda, como quem bebe o corpo de quem já foi.

Por Thiago Lagedo

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